Espiritismo e Comunismo

por João Carrara

Ao estudar a Doutrina Espirita devemos buscar compreender os ensinamentos dos nossos benfeitores maiores, de forma podermos entender a vontade de Deus nosso Pai.

Se procurarmos interpretar buscando a essência dos ensinamentos estaremos compreendendo melhor as Leis de Deus que regem a vida.

O Evangelho
O Evangelho.

Vivemos em um mundo de prova e expiações onde a mentira e ideologias mais estranhas criadas pela humanidade se apresentam com objetivo de aprendermos a discernir entre o bem e o mal.

Muitas dessas ideias são revestidas com aparência que podem ludibriar nossos sentimentos induzindo nosso entendimento ao erro, e trazem na sua essência o veneno do egoísmo, gerada por mentes ciosas, prepotentes, de forma que tentam cooptar pessoas através de ideologias, sequestrando-as para depois escraviza-las e assim tentam burlar as Leis Divinas que tem como objetivo o crescimento da criatura através do trabalho digno dando a cada um conforme suas obras.

A Doutrina Espírita na sua essência mais pura é Jesus, Kardec, Chico Xavier onde encontramos os ensinamentos que são as diretrizes para nossa evolução e na medida que melhor entendemos e vivenciarmos os ensinamentos, a vida seguira sem tantos percalços.

Vejamos as informações dos espíritos no Evangelho Segundo O Espiritismo edição EDICEL no item Explicações:

A 9 de agosto de 1863, Kardec recebeu uma comunicação dos seus Guias, sobre a elaboração deste livro. A comunicação assinalava o seguinte: “Esse livro de doutrina terá influência considerável, porque explana questões de interesse capital. Não somente o mundo religioso encontrará nele as máximas de que necessita, como as nações, in sua vida prática, dele haurirão instruções excelentes. Fizeste bem ao enfrentar as questões de elevada moral prática, do ponto de vista dos interesses gerais, dos interesses sociais e dos interesses religiosos”.

Os Espíritos informam que temos no Evangelho Segundo o Espiritismo instruções excelentes para questões de elevada moral pratica, do ponto de vista dos interesses gerais, sociais e religiosos, assim como as nações na sua vida pratica as máximas que necessita.

Entre outras instruções vamos ver aquelas que nos esclarece a respeito do tema proposto.

No capítulo XVI Não se pode servir a Deus e a Mamon, encontramos as instruções que elucidam nossas duvidas apresentando o planejamento Divino necessário à nossa evolução, através das diferentes posições socias vividas nas sucessivas reencarnações.

Evangelho Segundo o Espiritismo Cap. XVI
Utilidade providencial da riqueza. Provas da riqueza e da miséria
Item 7.
Neste item os espíritos nos esclarece que Deus permite a concentração da riqueza em determinadas mãos com objetivo de desenvolver o progresso intelectual e como consequência facilitar a vida do homem no planeta. Sendo a riqueza o principal meio de execução do progresso material, sem ela deixará de haver grandes trabalhos, não mais haverá atividades nem estímulos, nem pesquisas. É, pois, com razão que a riqueza é considerada elemento de progresso. Podemos ver os resultados do progresso já alcançado até o momento e citar, as facilidades do lar, meios de transportes, de comunicação, avanço da medicina e dos medicamentos, etc

Desigualdade das riquezas
Item 8. A desigualdade das riquezas é um dos problemas que inutilmente se procurará resolver, desde que se considere apenas a vida atual. Santo Agostinho diz que o Espiritismo vem lançar luz sobre os problemas do coração humano, e aqui está um dos maiores problema quando se considera apenas a vida atual, sem o entendimento da reencarnação, concluiríamos que há uma grande injustiça.

Temos ainda nas instruções dos Espíritos estes outros tópicos que completam a orientação.

A verdadeira propriedade
Item 9.
Os bens da Terra pertencem a Deus, que os distribui à vontade, não sendo o homem senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente desses bens. Tanto eles não constituem propriedade individual do homem, que Deus anula frequentemente todas as previsões, o que faz a riqueza escapar daquele que se julga com os melhores títulos para possuí-la.

Emprego da riqueza
Item 11.
Não; não podeis servir a Deus e a Mamon! Se, pois, sentis vossa alma dominada pelas cobiças da carne, apressai-vos em alijar o jugo que vos oprime, porque Deus, justo e severo, vos dirá: “Que fizeste, ecônomo infiel, dos bens que te confiei? Esse poderoso móvel de boas obras o empregaste exclusivamente na tua satisfação pessoal”.

Desprendimento dos bens terrenos
Podemos dizer que o espirita estudando atentamente este capitulo não se deixará enganar, discernindo o que é narrativa dos homens e a verdade que vem de Deus. Somando a esse entendimento recorremos as perguntas do Livro dos Espíritos.

119. Não podia Deus isentar os Espíritos das provas que lhes cumpre sofrer para chegarem à primeira ordem?
“Se Deus os houvesse criado perfeitos, nenhum mérito teria para gozar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o merecimento sem a luta? Demais, a desigualdade entre eles existente é necessária às suas personalidades. Acresce ainda que as missões que desempenham nos diferentes graus da escala estão nos desígnios da Providência, para a harmonia do Universo.”

Pois que, na vida social, todos os homens podem chegar às mais altas funções, seria o caso de perguntar-se por que o soberano de um país não faz de cada um de seus soldados um general; por que todos os empregados subalternos não são funcionários superiores; por que todos os colegiais não são mestres. Ora, entre a vida social e a espiritual há esta diferença: enquanto que a primeira é limitada e nem sempre permite que o homem suba todos os seus degraus, a segunda é indefinida e a todos oferece a possibilidade de se elevarem ao grau supremo.

Na questão acima Kardec esclarece que para evoluirmos precisamos passar por provas, e ele questiona aos espíritos se Deus não poderia nos isentar das lutas criando todos perfeitos. E os espíritos respondem que a desigualdade é necessária ás suas personalidades, e ao seu desenvolvimento espiritual, o qual todos um dia poderá se elevar ao grau supremo. Bastaria esse entendimento para compreendermos as porque das diferenças sociais e espirituais.

708. Não há situações em as quais os meios de subsistência de maneira alguma dependem da vontade do homem, sendo-lhe a privação do de que mais imperiosamente necessita uma consequência da força mesma das coisas?
“É isso uma prova, muitas vezes cruel, que lhe compete sofrer e à qual sabia ele de antemão que viria a estar exposto. Seu mérito então consiste em submeter-se à vontade de Deus, desde que a sua inteligência nenhum meio lhe faculta de sair da dificuldade. Se a morte vier colhê-lo, cumpre-lhe recebê-la sem murmurar, ponderando que a hora da verdadeira libertação soou e que o desespero no derradeiro momento pode ocasionar-lhe a perda do fruto de toda a sua resignação.”

Na questão acima vemos o determinismo da lei Divina e Sua vontade tendo como objetivo a evolução da criatura. Podemos entender que através das desigualdades sociais entre as criaturas é que surgem as oportunidades de exercício das virtudes, praticando a caridade exercitando o desprendimento dos bens materiais, a abneaçgão, a humildade, devotamento ao próximo, enfim todas as virtudes necessárias a nossa evolução. Interessante observar que pela prática da caridade que é uma lei Divina, Deus permite através dela a interferir na lei de causa e efeito aliviando as provas do próximo seus sofrimentos.

Conclusão

O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, se propõe a ser uma doutrina moral e filosófica, não um projeto político. Ainda assim, é possível apontar pontos de aproximação e de divergência entre o pensamento espírita e o comunismo, no plano dos valores, sem confundi-los.

Materialismo e Opressão
Materialismo e Opressão.

Pontos de possível concordância (parcial)

  1. Igualdade essencial dos seres humanos
    O Espiritismo ensina que todos os Espíritos são criados iguais, ou seja, simples e ignorantes e evoluem ao longo do tempo.
    → Isso dialoga com a ideia de igualdade humana defendida pelo comunismo, mas em sentido espiritual, não econômico.
  2. Crítica ao egoísmo e à exploração
    A doutrina espírita condena:
  • exploração do homem pelo homem
  • acúmulo egoísta de riquezas sem produzir o bem
  • indiferença social
  1. Responsabilidade social
    O Espiritismo afirma que a riqueza é uma prova e gera deveres morais, como:
  • caridade
  • solidariedade
  • auxílio aos necessitados.
  • elemento de progresso

Pontos claros de discordância

  1. Materialismo
  • O comunismo clássico (especialmente o marxista) é materialista e geralmente ateu.
  • O Espiritismo é espiritualista, baseia-se na imortalidade da alma e na vida futura.
    Isso é uma divergência fundamental.
  1. Coerção versus transformação moral
  • Comunismo: busca igualdade por meio de estrutura estatal e imposição coletiva
  • Espiritismo: propõe a igualdade pela transformação moral do indivíduo, pelo livre-arbítrio
    Kardec é claro ao afirmar que: “O progresso real da humanidade é moral, não apenas social.”
  1. Abolição da propriedade privada
  • O Espiritismo não condena a propriedade privada em si.
  • O problema, segundo a doutrina, é o uso egoísta da riqueza, não sua existência.
  1. Luta de classes
    O Espiritismo não endossa a ideia de luta ou antagonismo entre classes.
    Defende:
  • fraternidade
  • cooperação
  • reconciliação entre os homens

Síntese equilibrada

  • O Espiritismo não é comunista, nem capitalista.
  • Ele concorda com valores morais universais como justiça social e fraternidade.
  • Mas rejeita o materialismo, a imposição ideológica e a supressão do livre-arbítrio.

Kardec resumiria assim:

  • a sociedade melhora quando o homem melhora
  • leis e sistemas ajudam, mas não substituem a reforma íntima

8. Igualdade essencial dos homens
Pergunta 803 – O Livro dos Espíritos
“Perante Deus, todos os homens são iguais; o que os distingue é o grau de perfeição alcançado.”
Interpretação espírita:

  • A igualdade é espiritual, não imposta economicamente.
  • As diferenças sociais são provas temporárias, não privilégios eternos.
    Aqui há convergência parcial com a ideia de igualdade humana, mas o fundamento é espiritual, não materialista.

9. Desigualdade social e riqueza
Pergunta 806
“A desigualdade das condições sociais é uma lei natural?”
Resposta: “Não; é obra do homem, não de Deus.”

  • O Espiritismo reconhece que a desigualdade injusta é criação humana.
  • Mas não conclui que a solução seja abolir a propriedade privada.

10. Propriedade privada
Pergunta 882
“Qual é o primeiro de todos os direitos naturais do homem?”
Resposta: “O de viver. É por isso que ninguém tem o direito de atentar contra a via de seu semelhante.”
Pergunta 884
“Qual o caráter da propriedade?”
Resposta: “É um direito natural, mas que deve ser regulado pela justiça.”

  • O Espiritismo reconhece a propriedade, mas subordinada à justiça e ao bem comum.
  • Diferente do comunismo clássico, que propõe sua eliminação.

11. Uso da riqueza (ponto-chave)
Pergunta 814
“Por que Deus concede riquezas a uns e não a outros?”
Resposta: “Para experimentá-los de maneiras diferentes. Além disso, para que os ricos tenham o meio de fazer o bem.”

  • A riqueza é uma prova moral, não um direito absoluto.
  • O erro não é possuir, mas reter egoisticamente.

12. Crítica à imposição e à violência social
Kardec, em A Gênese, cap. XVIII:
“A verdadeira regeneração da humanidade depende da melhoria moral dos indivíduos.”

  • O Espiritismo rejeita a ideia de que mudanças estruturais forçadas resolvam o problema humano.
  • Sem reforma íntima, qualquer sistema falha — seja comunista ou capitalista.

Conclusão clara

O Espiritismo defende a justiça social, condena a exploração e o egoísmo e promove a fraternidade, mas não apoia o materialismo, a luta de classes, a imposição estatal da igualdade e a negação da espiritualidade.

Resumo em uma frase: O Espiritismo busca uma sociedade justa pela transformação moral do indivíduo, não por revoluções ideológicas.


Espiritismo × Marxismo (Comunismo)

TemaEspiritismo (Kardec)Marxismo / Comunismo
Natureza do ser humanoEspírito imortal em evoluçãoSer material condicionado pela economia
Visão do mundoEspiritualistaMaterialista
Deus / espiritualidadeDeus existe; leis morais universaisGeralmente ateu ou antirreligioso
IgualdadeEspiritual: todos os Espíritos são iguais perante DeusEconômica e social, imposta pelo sistema
Origem da desigualdadeEgoísmo e atraso moral do homemPropriedade privada e exploração econômica
Solução para injustiçaReforma íntima + educação moralRevolução social e mudança estrutural
Propriedade privadaPermitida, mas com responsabilidade moralDeve ser abolida
RiquezaProva moral; meio de fazer o bemInstrumento de opressão de classe
Luta de classesRejeitada; defende fraternidadeCentral para a transformação social
Uso da força / coerçãoNão aceita imposição moralAceita coerção revolucionária
Liberdade individualFundamental (livre-arbítrio)Subordinada ao coletivo
Objetivo finalProgresso moral do EspíritoSociedade sem classes

13. Onde nasce a confusão
Muita gente acha que o Espiritismo é “socialista” porque ele critica o egoísmo, defende a justiça social, valoriza a solidariedade e condena a miséria evitável. Mas o caminho é totalmente diferente:

  • O comunismo muda o sistema esperando que o homem mude.
  • O Espiritismo muda o homem esperando que a sociedade melhore.

Como Kardec resumiria (síntese fiel):
“Não é mudando as instituições que se muda o coração do homem, mas mudando o homem que as instituições se tornam justas.”

Observação importante: Alguns espíritas pessoalmente adotaram ideias de esquerda ou direita — isso é opinião individual, não doutrina. A doutrina espírita não autoriza militância partidária em nome do Espiritismo, nem o uso da religião como instrumento ideológico.

14. Posições de Chico Xavier e Contexto Doutrinário

  • Espiritismo não é ideologia política: Chico sempre foi muito cauteloso em separar Espiritismo de política partidária. Ele afirmava que o Espiritismo não é partido político, mas uma doutrina de renovação moral. O espírita pode ter opinião política individual, mas não pode falar em nome da doutrina para defender sistemas de governo.
  • Justiça social, sem violência: Chico era profundamente sensível ao sofrimento dos vulneráveis, mas rejeitava a violência revolucionária: “Sem Jesus no coração, qualquer sistema se transforma em fracasso”.

15. O Espiritismo e o Voto
O Espiritismo não diz em quem votar, mas como votar. O princípio central reside na consciência, responsabilidade e ética. Segundo a visão espírita, o voto é um ato moral onde cada escolha gera responsabilidade espiritual, não existindo voto neutro do ponto é ético.

16. Critérios espíritas para avaliar candidatos e propostas
Inspirados em O Livro dos Espíritos e no Evangelho:

  • Caráter acima da ideologia: Mais importante que divisões de espectro político são a honestidade, o respeito à vida e o compromisso com o bem comum. “Reconhece-se o verdadeiro homem de bem pela sua conduta” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII).
  • Rejeição ao ódio e à violência: O Espiritismo não apoia discursos que promovam ódio de classe, desumanizem adversários ou justifiquem a violência em nome de um suposto bem.
  • Defesa da dignidade humana: Apoio a propostas que reduzam a miséria, promovam a educação e respeitem os vulneráveis, sem aceitar meios imorais para fins nobres.
  • Liberdade de consciência: Valorização extrema do livre-arbítrio e rejeição a regimes autoritários que suprimam liberdades fundamentais, enxergando a coerção como sinal de atraso moral.

A participação política do espírita é legítima no campo do voto, do debate e da ocupação de cargos públicos em nome próprio. Contudo, não deve usar o Espiritismo como bandeira partidária ou afirmar que a doutrina choca-se a favor de sistemas humanos.

O Diferencial Espírita
O Espiritismo acrescenta a perspectiva da imortalidade da alma, a responsabilidade além desta vida, a lei de causa e efeito e o progresso espiritual contínuo. Sem esses pilares, as tentativas de engenharia social tendem a concentrar poder e gerar novas formas de opressão.

Frase-síntese final: O Espiritismo não é de esquerda nem de direita; é de consciência. Não propõe revolução social, propõe revolução moral.